Nos últimos anos, a ciência vem mostrando que doenças metabólicas e doenças neurodegenerativas podem estar mais conectadas do que se imaginava.
Condições como diabetes mellitus tipo 2, obesidade e resistência à insulina não afetam apenas o metabolismo do corpo, mas também podem influenciar diretamente no funcionamento do cérebro.
Esse entendimento levou pesquisadores a investigar por que pacientes com diabetes apresentam maior risco de desenvolver Doença de Alzheimer e outras formas de declínio cognitivo.
Dentro desse cenário, o Canabidiol (CBD) destaca-se como uma substância com potencial terapêutico amplo, principalmente por atuar em processos biológicos como inflamação crônica, estresse oxidativo e disfunção mitocondrial.
O estudo analisado por Kenneth Maiese reforça esse interesse ao explorar uma convergência importante: mecanismos que envolvem o Sistema Endocanabinoide, o CBD e os receptores GLP-1, alvo de medicamentos modernos usados no tratamento do diabetes e no controle de peso.
Essa aproximação entre metabolismo e neurodegeneração é uma tendência crescente na medicina, com potencial para transformar a maneira como doenças crônicas são compreendidas e tratadas.
Por que diabetes e Alzheimer estão ligados?
A Doença de Alzheimer é caracterizada por perda progressiva da memória e comprometimento cognitivo, mas sua origem envolve muito mais do que apenas o envelhecimento cerebral.
O estudo destaca que processos metabólicos têm papel fundamental na progressão da doença. Isso ocorre porque o cérebro depende de energia constante para funcionar, e grande parte dessa energia vem da glicose.
Quando o corpo desenvolve resistência à insulina, como ocorre no diabetes tipo 2, a utilização de glicose pelas células se torna menos eficiente.
Esse problema não afeta só os músculos e o fígado, mas também atinge o sistema nervoso central. Com o tempo, a falta de energia adequada, combinada com inflamação persistente, cria um ambiente favorável ao declínio neuronal.
Além disso, o diabetes favorece alterações inflamatórias sistêmicas, aumenta o estresse oxidativo e pode prejudicar a circulação sanguínea cerebral.
Juntos, esses fatores podem acelerar o acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, como a beta-amiloide e a proteína tau, relacionadas à degeneração progressiva dos neurônios.
Por esse motivo, muitos pesquisadores já tratam o Alzheimer e o diabetes como condições conectadas por mecanismos comuns, e não como doenças separadas.
O que é GLP-1 e por que ele virou alvo de novas terapias
O GLP-1 é um hormônio produzido principalmente no intestino e está diretamente relacionado ao controle do metabolismo. Ele ajuda o organismo a aumentar a produção de insulina, reduzir a liberação de glucagon, diminuir o apetite e melhorar o equilíbrio energético.
Por isso, medicamentos que ativam o receptor GLP-1 se tornaram uma das principais estratégias modernas para tratar diabetes tipo 2 e obesidade.
O que chama atenção é que o receptor GLP-1 também está presente no cérebro. Isso significa que essas terapias podem influenciar processos além do metabolismo, incluindo inflamação cerebral, neuroproteção e até mecanismos ligados à memória.
Essa descoberta abriu uma nova linha de investigação: se o GLP-1 pode oferecer proteção neurológica, talvez seja possível reduzir riscos ou retardar processos neurodegenerativos em pacientes vulneráveis.
O papel do CBD na inflamação e no estresse oxidativo
O Canabidiol é um fitocanabinoide não psicoativo, ou seja, não provoca efeitos intoxicantes como o THC.
Sua relevância terapêutica vem sendo estudada porque ele atua em múltiplas vias biológicas relacionadas à inflamação, ao estresse oxidativo e ao equilíbrio celular.
O estudo revisado destaca que o CBD pode reduzir processos inflamatórios crônicos, algo fundamental tanto no diabetes quanto no Alzheimer.
A inflamação persistente, principalmente em longo prazo, contribui para a destruição progressiva de tecidos e pode agravar alterações neurológicas.
Além disso, o CBD apresenta potencial antioxidante, reduzindo danos causados por radicais livres. O estresse oxidativo é um dos principais fatores associados ao envelhecimento celular, à perda neuronal e ao agravamento de doenças metabólicas.
Quando o organismo perde a capacidade de controlar esse processo, ocorre maior risco de degeneração e falhas no funcionamento das células.
Essa combinação de ação anti-inflamatória e antioxidante coloca o CBD como um composto de grande interesse para condições crônicas complexas.
Mitocôndrias e energia celular como ponto central
Um dos pontos mais relevantes do estudo é a relação entre as mitocôndrias e as doenças degenerativas. As mitocôndrias são estruturas responsáveis por produzir energia dentro das células.
Quando elas falham, o corpo sofre impactos importantes, principalmente no cérebro, que precisa de alta demanda energética para manter memória, atenção e funcionamento cognitivo.
No diabetes e no Alzheimer, a disfunção mitocondrial é considerada um mecanismo importante. O estudo aponta que o CBD pode atuar como modulador de processos que preservam a função mitocondrial, ajudando a reduzir danos celulares e favorecendo um ambiente metabólico mais equilibrado.
Essa proteção energética pode ter impacto direto na saúde neuronal e na manutenção das conexões cerebrais, especialmente em condições associadas ao envelhecimento.
Autofagia como mecanismo de limpeza celular
Outro conceito essencial abordado pelo estudo é a autofagia. Esse processo funciona como uma espécie de “limpeza interna” das células.
Quando a autofagia ocorre corretamente, o organismo consegue eliminar estruturas danificadas, proteínas acumuladas e resíduos celulares, prevenindo inflamações e reduzindo o risco de degeneração.
No Alzheimer, a autofagia se torna ainda mais importante porque o acúmulo de beta-amiloide e tau está diretamente relacionado à progressão da doença. Quando o sistema de limpeza falha, essas proteínas se acumulam e prejudicam a função dos neurônios.
O estudo indica que o CBD pode modular a autofagia e também a mitofagia, um processo semelhante, mas voltado especificamente para a remoção de mitocôndrias danificadas.
Isso é extremamente relevante, pois reforça a ideia de que o CBD pode contribuir para preservar a integridade neuronal e o equilíbrio metabólico.
CBD e Alzheimer: efeitos em beta-amiloide e tau
As evidências discutidas no artigo reforçam que o CBD pode atuar em mecanismos associados aos principais marcadores do Alzheimer.
Em modelos pré-clínicos, o composto mostrou potencial para favorecer a remoção de beta-amiloide e modular alterações da proteína tau, dois fatores diretamente relacionados à degeneração cognitiva.
Além disso, o estudo destaca o papel da microglia, que são células de defesa do cérebro. Quando ativadas de forma excessiva, elas contribuem para a neuroinflamação e piora do quadro. Porém, quando atuam de forma equilibrada, ajudam a remover resíduos e proteínas tóxicas.
O CBD parece influenciar esse equilíbrio, favorecendo uma resposta microglial mais protetora e menos inflamatória, o que pode ter impacto importante na progressão neurodegenerativa.
Semelhanças entre CBD e terapias com GLP-1
O grande diferencial do estudo é mostrar que o CBD e os agonistas de GLP-1 podem convergir em mecanismos biológicos semelhantes.
Ambos parecem atuar na redução da inflamação, na melhora do metabolismo energético, no controle do estresse oxidativo e na preservação da função mitocondrial.
Essas semelhanças importam porque sugerem que terapias metabólicas podem ter benefícios cognitivos, e que compostos como o CBD podem atuar em pontos estratégicos ligados tanto ao diabetes quanto à neurodegeneração.
Essa conexão reforça a ideia de que tratar doenças metabólicas pode ser uma estratégia fundamental para prevenir ou retardar doenças neurológicas associadas ao envelhecimento.
Por que a via mTOR exige atenção
O estudo também destaca que algumas vias regulatórias exigem cautela, especialmente a via mTOR, que participa do crescimento celular e do metabolismo energético. A hiperativação da mTOR pode bloquear a autofagia, prejudicando a eliminação de resíduos celulares.
O CBD pode influenciar essas vias, mas os autores ressaltam que o equilíbrio entre autofagia e mTOR é delicado. Por isso, ainda são necessários estudos clínicos mais robustos para entender como o CBD pode ser aplicado com segurança em protocolos terapêuticos, principalmente em uso prolongado.
Conclusão
A ciência moderna reforça cada vez mais que o corpo funciona como um sistema integrado, onde metabolismo e saúde cerebral caminham juntos. O diabetes, a obesidade e o envelhecimento metabólico podem aumentar significativamente o risco de neurodegeneração e declínio cognitivo.
Dentro desse cenário, o Canabidiol (CBD) surge como um composto promissor por sua capacidade de modular inflamação, estresse oxidativo, função mitocondrial e mecanismos de limpeza celular como a autofagia.
O estudo analisado aponta que esses efeitos se aproximam de mecanismos observados em terapias modernas baseadas no receptor GLP-1, o que fortalece a hipótese de convergência terapêutica entre metabolismo e neuroproteção.
Apesar dos resultados encorajadores, ainda é essencial ampliar estudos clínicos translacionais para confirmar segurança, eficácia e aplicações reais em humanos.
Mesmo assim, os dados atuais já indicam que o CBD pode ser uma abordagem complementar especialmente em pacientes com risco metabólico associado ao envelhecimento e à neurodegeneração.
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Referência científica
Maiese K. Cannabis and cannabidiol, GLP-1 receptors and autophagy: the growing link between cognitive neurodegeneration and metabolic disease. Link





