Nos últimos anos, a medicina tem avançado na compreensão de síndromes marcadas por dor crônica, sintomas difusos e difícil mensuração objetiva.
Condições como enxaqueca, fibromialgia e síndrome do intestino irritável compartilham características clínicas importantes, como hipersensibilidade à dor, alterações no sono, fadiga persistente e resposta limitada aos tratamentos convencionais.
Um dos maiores desafios no manejo dessas condições é a ausência de marcadores biológicos claros que expliquem, de forma integrada, a origem dos sintomas.
Esse cenário levou pesquisadores a buscar novos modelos fisiológicos capazes de conectar dor, inflamação, estresse e alterações do humor em um mesmo eixo regulatório.
O Sistema Endocanabinoide e seu papel no equilíbrio do organismo
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é uma rede biológica fundamental para a manutenção da homeostase do corpo.
Ele é composto principalmente por endocanabinoides, como a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG), pelos receptores canabinoides CB1 e CB2 e pelas enzimas responsáveis por sua síntese e degradação.
Esse sistema atua na modulação da dor, do sono, do apetite, da resposta inflamatória, do humor e da resposta ao estresse. Em condições normais, o SEC funciona como um regulador fino, ajustando essas funções conforme a necessidade do organismo.
A hipótese da Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide
Em 2001, o neurologista e pesquisador Ethan Russo propôs a hipótese da Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide, também conhecida como Síndrome de Deficiência Endocanabinoide (SDE).
Segundo essa teoria, algumas pessoas apresentariam um funcionamento inadequado do SEC, caracterizado por um baixo “tônus endocanabinoide”.
Esse tônus depende dos níveis de anandamida e 2-AG, da eficiência dos receptores canabinoides e da atividade das enzimas que regulam esses mediadores.
Quando esse equilíbrio é comprometido, podem surgir alterações fisiopatológicas associadas à dor crônica, distúrbios do sono, inflamação persistente e alterações emocionais.
Evidências científicas que sustentam a SDE

O que inicialmente foi apresentado como uma hipótese teórica passou a ganhar respaldo científico ao longo dos anos.
Estudos demonstraram, por exemplo, níveis reduzidos de anandamida no líquido cefalorraquidiano de pacientes com enxaqueca, sugerindo uma hipofunção do Sistema Endocanabinoide nesses indivíduos.
Além disso, evidências apontam alterações semelhantes em outras condições, como fibromialgia, síndrome do intestino irritável e transtorno de estresse pós-traumático.
Esses dados reforçam a ideia de que o SEC desempenha um papel central na modulação da dor e da sensibilidade central, ajudando a explicar por que essas síndromes frequentemente coexistem ou compartilham sintomas semelhantes.
Relação entre deficiência endocanabinoide e dor crônica
A deficiência funcional do SEC pode levar a uma amplificação da percepção da dor, fenômeno conhecido como hiperalgesia. Isso ocorre porque o SEC atua como um freio natural sobre os circuitos da dor no sistema nervoso central e periférico.
Quando esse freio falha, o corpo passa a interpretar estímulos normalmente toleráveis como dor, o que favorece a cronificação dos sintomas e aumenta a sensibilização central nessas síndromes.
Modulação do Sistema Endocanabinoide como estratégia terapêutica
Dados clínicos e experimentais indicam que estratégias voltadas à modulação do SEC podem beneficiar pacientes com dor crônica e distúrbios funcionais.
Isso inclui tanto intervenções farmacológicas, como o uso de fitocanabinoides, quanto abordagens não farmacológicas.
Há evidências de que hábitos de vida saudáveis, como sono adequado, manejo do estresse, atividade física regular e alimentação equilibrada, contribuem para o equilíbrio do Sistema Endocanabinoide.
Essas estratégias podem favorecer a produção e a ação dos endocanabinoides, ajudando a restaurar o tônus fisiológico do sistema.
Uma mudança de paradigma no cuidado de condições complexas
A Síndrome de Deficiência Endocanabinoide representa uma mudança importante na forma de compreender condições crônicas e multifatoriais.
Em vez de tratar apenas sintomas isolados, esse modelo propõe uma abordagem baseada em mecanismos fisiológicos reais, integrando dor, inflamação, sono e saúde mental.
Ao ampliar o olhar clínico sobre o papel do Sistema Endocanabinoide, abre-se espaço para estratégias terapêuticas mais individualizadas e fundamentadas em evidências científicas, com potencial impacto positivo na qualidade de vida de pacientes que convivem com essas condições há anos.
Referência científica:
Russo EB. Clinical Endocannabinoid Deficiency Reconsidered: Current Research Supports the Theory in Migraine, Fibromyalgia, Irritable Bowel, and Other Treatment-Resistant Syndromes. Cannabis Cannabinoid Res. 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28861491/