A enxaqueca é a segunda causa mais comum de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para além de uma dor de cabeça, a enxaqueca pode provocar sintomas intensos que afetam diretamente a rotina, o trabalho, o sono e a qualidade de vida dos pacientes.
Crises frequentes de enxaqueca costumam vir acompanhadas de náuseas, sensibilidade à luz, sensibilidade ao som, fadiga e dificuldade de concentração. Em muitos casos, os pacientes convivem com sintomas recorrentes mesmo utilizando tratamentos convencionais.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar com mais profundidade o potencial da Cannabis medicinal no manejo da enxaqueca, especialmente por sua interação com mecanismos neurológicos relacionados à dor e ao Sistema Endocanabinoide.
Um estudo recente baseado no Registro de Cannabis Medicinal do Reino Unido levantou dados sobre os efeitos da terapia com fitocanabinoides em pacientes enxaquecosos ao longo de até 24 meses de acompanhamento.
O impacto da enxaqueca na qualidade de vida
Muitos pacientes apresentam crises de enxaqueca recorrentes que interferem diretamente em atividades diárias, produtividade e relações sociais.
Além da dor intensa, a condição frequentemente se associa a alterações do sono, ansiedade, estresse e sintomas emocionais.
Em alguns casos, o medo de novas crises também contribui para o comprometimento psicológico e para a redução da qualidade de vida.
Embora existam medicamentos preventivos e terapias para controle das crises, parte dos pacientes segue apresentando sintomas persistentes ou resposta limitada aos tratamentos disponíveis.
O que é a Cannabis medicinal
A medicina canabinoide utiliza os compostos da planta Cannabis sativa com finalidade terapêutica. Entre os principais fitocanabinoides estudados estão o Canabidiol (CBD) e o Tetrahidrocanabinol (THC).
Estes compostos interagem com o Sistema Endocanabinoide, uma rede biológica presente no corpo humano responsável pela modulação de diversas funções do organismo, incluindo percepção da dor, humor, resposta inflamatória, sono e equilíbrio neurológico.
Pesquisadores acreditam que alterações nesse sistema possam estar relacionadas ao desenvolvimento de condições neurológicas e dolorosas, incluindo a enxaqueca.
Como o estudo foi realizado
O estudo analisou dados do Registro de Cannabis Medicinal do Reino Unido, um banco de informações clínicas que acompanha pacientes em uso terapêutico de Cannabis medicinal.
Os pesquisadores avaliaram adultos com diagnóstico de enxaqueca ao longo de até 24 meses de tratamento.
O objetivo foi investigar tanto a eficácia quanto a segurança dos produtos medicinais à base de Cannabis.
Durante o acompanhamento, os pacientes responderam questionários clínicos relacionados ao impacto das cefaleias, qualidade do sono, ansiedade e qualidade de vida geral.
Esse tipo de estudo observacional permite avaliar como os pacientes evoluem ao longo do tempo em condições mais próximas da prática clínica real.
Melhora nos sintomas da enxaqueca
Os resultados mostraram uma melhora consistente em diferentes desfechos relacionados à enxaqueca.
Os pacientes relataram redução do impacto das cefaleias no cotidiano, indicando a melhoria na funcionalidade. Esse dado é positivo visto que a enxaqueca frequentemente interfere em atividades simples, como trabalhar, estudar ou manter interações sociais.
Os benefícios surgiram já nos primeiros meses de acompanhamento e permaneceram, em grande parte, sustentados ao longo dos dois anos avaliados.
Esse resultado sugere que a terapia canabinoide pode apresentar efeito contínuo em pacientes com sintomas persistentes.
Efeitos na qualidade do sono
A qualidade do sono foi outro aspecto que apresentou melhora durante o acompanhamento.
Distúrbios do sono são extremamente comuns em pacientes com enxaqueca. Muitas pessoas apresentam dificuldade para dormir, sono fragmentado ou piora das crises após noites mal dormidas.
Os dados do estudo indicam que os pacientes perceberam melhora nesse aspecto após o início da terapia com Cannabis medicinal.
Pesquisadores acreditam que esse efeito possa estar relacionado à modulação do Sistema Endocanabinoide, que participa da regulação do ciclo sono–vigília e de mecanismos relacionados ao relaxamento e à resposta ao estresse.
Redução da ansiedade associada à enxaqueca
Os níveis de ansiedade também apresentaram melhora.
A ansiedade frequentemente acompanha pacientes com enxaqueca crônica e pode aumentar tanto a frequência quanto a intensidade das crises. Em muitos casos, o estresse emocional atua como gatilho para novos episódios.
Os resultados sugerem que a terapia canabinoide pode ajudar em sintomas emocionais associados à condição, para além da dor.
Esse efeito pode estar relacionado principalmente à ação dos fitocanabinoides sobre circuitos neurológicos envolvidos na regulação emocional e na resposta ao estresse.
O papel do THC nos resultados observados
Os pesquisadores também observaram que doses mais elevadas de Tetrahidrocanabinol (THC) estiveram associadas a maior probabilidade de melhora em medidas específicas de incapacidade relacionada à enxaqueca.
No entanto, os autores destacam que esses resultados devem ser interpretados com cautela devido à variabilidade observada entre os pacientes.
Isso ocorre porque a resposta aos fitocanabinoides pode variar conforme fatores individuais, formulação utilizada, dose administrada e perfil clínico de cada pessoa.
Segurança e tolerabilidade
Em relação à segurança, os produtos medicinais à base de Cannabis foram considerados bem tolerados.
Alguns pacientes relataram eventos adversos, mas a maior parte apresentou intensidade leve a moderada. Esse dado é importante porque a segurança representa um dos principais pontos de avaliação em terapias de longo prazo.
Os resultados reforçam a necessidade de acompanhamento clínico individualizado, especialmente em tratamentos que envolvem diferentes formulações de fitocanabinoides.
Como a Cannabis medicinal pode atuar na enxaqueca
Embora os mecanismos ainda estejam em investigação, pesquisadores acreditam que a Cannabis medicinal possa influenciar diferentes vias biológicas relacionadas à enxaqueca.
O Sistema Endocanabinoide participa da modulação da dor, da inflamação, da excitabilidade neuronal e da resposta ao estresse. Alterações nesse sistema têm sido associadas a condições dolorosas crônicas, incluindo a enxaqueca.
Estudos apontam que os fitocanabinoides podem atuar em neurotransmissores e vias inflamatórias envolvidas na fisiopatologia das crises.
Essa atuação multifatorial revela que a enxaqueca envolve diferentes mecanismos neurológicos simultaneamente.
O que os pesquisadores ainda precisam confirmar
Apesar dos resultados promissores, os autores destacam a necessidade de novos estudos clínicos randomizados e controlados.
O estudo utilizou dados observacionais do registro clínico, o que permite identificar associações, mas não confirmar a causalidade de forma definitiva.
Pesquisadores ainda precisam definir protocolos mais precisos relacionados à dose, formulação ideal, perfil de pacientes e segurança a longo prazo.
O que os resultados indicam na prática clínica
Na prática clínica, os dados sugerem que a Cannabis medicinal pode representar uma estratégia complementar no manejo da enxaqueca, especialmente em pacientes com resposta limitada às terapias convencionais.
A melhora observada em aspectos como qualidade de vida, sono e ansiedade reforça o potencial terapêutico da modulação do Sistema Endocanabinoide em condições neurológicas complexas.
Embora mais pesquisas ainda sejam necessárias, o crescimento das evidências científicas amplia o interesse médico sobre o papel dos fitocanabinoides no manejo da enxaqueca.
Sugestão de leitura: Qualidade do sono após 1 ano de terapia com Cannabis medicinal
Referência científica
Hooper L, Erridge S, Clarke E, et al.
UK Medical Cannabis Registry: An Analysis of Clinical Outcomes for Migraine.
Brain and Behavior. 2026;16(4):e71323.
https://doi.org/10.1002/brb3.71323






