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CBD e receptor GLP-1 podem abrir novos caminhos contra Alzheimer e diabetes

Nos últimos anos, a ciência vem mostrando que doenças metabólicas e doenças neurodegenerativas podem estar mais conectadas do que se imaginava.

Condições como diabetes mellitus tipo 2, obesidade e resistência à insulina não afetam apenas o metabolismo do corpo, mas também podem influenciar diretamente no funcionamento do cérebro.

Esse entendimento levou pesquisadores a investigar por que pacientes com diabetes apresentam maior risco de desenvolver Doença de Alzheimer e outras formas de declínio cognitivo.

Dentro desse cenário, o Canabidiol (CBD) destaca-se como uma substância com potencial terapêutico amplo, principalmente por atuar em processos biológicos como inflamação crônica, estresse oxidativo e disfunção mitocondrial.

O estudo analisado por Kenneth Maiese reforça esse interesse ao explorar uma convergência importante: mecanismos que envolvem o Sistema Endocanabinoide, o CBD e os receptores GLP-1, alvo de medicamentos modernos usados no tratamento do diabetes e no controle de peso.

Essa aproximação entre metabolismo e neurodegeneração é uma tendência crescente na medicina, com potencial para transformar a maneira como doenças crônicas são compreendidas e tratadas.

Por que diabetes e Alzheimer estão ligados?

A Doença de Alzheimer é caracterizada por perda progressiva da memória e comprometimento cognitivo, mas sua origem envolve muito mais do que apenas o envelhecimento cerebral.

O estudo destaca que processos metabólicos têm papel fundamental na progressão da doença. Isso ocorre porque o cérebro depende de energia constante para funcionar, e grande parte dessa energia vem da glicose.

Quando o corpo desenvolve resistência à insulina, como ocorre no diabetes tipo 2, a utilização de glicose pelas células se torna menos eficiente.

Esse problema não afeta só os músculos e o fígado, mas também atinge o sistema nervoso central. Com o tempo, a falta de energia adequada, combinada com inflamação persistente, cria um ambiente favorável ao declínio neuronal.

Além disso, o diabetes favorece alterações inflamatórias sistêmicas, aumenta o estresse oxidativo e pode prejudicar a circulação sanguínea cerebral.

Juntos, esses fatores podem acelerar o acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, como a beta-amiloide e a proteína tau, relacionadas à degeneração progressiva dos neurônios.

Por esse motivo, muitos pesquisadores já tratam o Alzheimer e o diabetes como condições conectadas por mecanismos comuns, e não como doenças separadas.

O que é GLP-1 e por que ele virou alvo de novas terapias

O GLP-1 é um hormônio produzido principalmente no intestino e está diretamente relacionado ao controle do metabolismo. Ele ajuda o organismo a aumentar a produção de insulina, reduzir a liberação de glucagon, diminuir o apetite e melhorar o equilíbrio energético.

Por isso, medicamentos que ativam o receptor GLP-1 se tornaram uma das principais estratégias modernas para tratar diabetes tipo 2 e obesidade.

O que chama atenção é que o receptor GLP-1 também está presente no cérebro. Isso significa que essas terapias podem influenciar processos além do metabolismo, incluindo inflamação cerebral, neuroproteção e até mecanismos ligados à memória.

Essa descoberta abriu uma nova linha de investigação: se o GLP-1 pode oferecer proteção neurológica, talvez seja possível reduzir riscos ou retardar processos neurodegenerativos em pacientes vulneráveis.

O papel do CBD na inflamação e no estresse oxidativo

O Canabidiol é um fitocanabinoide não psicoativo, ou seja, não provoca efeitos intoxicantes como o THC.

Sua relevância terapêutica vem sendo estudada porque ele atua em múltiplas vias biológicas relacionadas à inflamação, ao estresse oxidativo e ao equilíbrio celular.

O estudo revisado destaca que o CBD pode reduzir processos inflamatórios crônicos, algo fundamental tanto no diabetes quanto no Alzheimer.

A inflamação persistente, principalmente em longo prazo, contribui para a destruição progressiva de tecidos e pode agravar alterações neurológicas.

Além disso, o CBD apresenta potencial antioxidante, reduzindo danos causados por radicais livres. O estresse oxidativo é um dos principais fatores associados ao envelhecimento celular, à perda neuronal e ao agravamento de doenças metabólicas.

Quando o organismo perde a capacidade de controlar esse processo, ocorre maior risco de degeneração e falhas no funcionamento das células.

Essa combinação de ação anti-inflamatória e antioxidante coloca o CBD como um composto de grande interesse para condições crônicas complexas.

Mitocôndrias e energia celular como ponto central

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a relação entre as mitocôndrias e as doenças degenerativas. As mitocôndrias são estruturas responsáveis por produzir energia dentro das células.

Quando elas falham, o corpo sofre impactos importantes, principalmente no cérebro, que precisa de alta demanda energética para manter memória, atenção e funcionamento cognitivo.

No diabetes e no Alzheimer, a disfunção mitocondrial é considerada um mecanismo importante. O estudo aponta que o CBD pode atuar como modulador de processos que preservam a função mitocondrial, ajudando a reduzir danos celulares e favorecendo um ambiente metabólico mais equilibrado.

Essa proteção energética pode ter impacto direto na saúde neuronal e na manutenção das conexões cerebrais, especialmente em condições associadas ao envelhecimento.

Autofagia como mecanismo de limpeza celular

Outro conceito essencial abordado pelo estudo é a autofagia. Esse processo funciona como uma espécie de “limpeza interna” das células.

Quando a autofagia ocorre corretamente, o organismo consegue eliminar estruturas danificadas, proteínas acumuladas e resíduos celulares, prevenindo inflamações e reduzindo o risco de degeneração.

No Alzheimer, a autofagia se torna ainda mais importante porque o acúmulo de beta-amiloide e tau está diretamente relacionado à progressão da doença. Quando o sistema de limpeza falha, essas proteínas se acumulam e prejudicam a função dos neurônios.

O estudo indica que o CBD pode modular a autofagia e também a mitofagia, um processo semelhante, mas voltado especificamente para a remoção de mitocôndrias danificadas.

Isso é extremamente relevante, pois reforça a ideia de que o CBD pode contribuir para preservar a integridade neuronal e o equilíbrio metabólico.

CBD e Alzheimer: efeitos em beta-amiloide e tau

As evidências discutidas no artigo reforçam que o CBD pode atuar em mecanismos associados aos principais marcadores do Alzheimer.

Em modelos pré-clínicos, o composto mostrou potencial para favorecer a remoção de beta-amiloide e modular alterações da proteína tau, dois fatores diretamente relacionados à degeneração cognitiva.

Além disso, o estudo destaca o papel da microglia, que são células de defesa do cérebro. Quando ativadas de forma excessiva, elas contribuem para a neuroinflamação e piora do quadro. Porém, quando atuam de forma equilibrada, ajudam a remover resíduos e proteínas tóxicas.

O CBD parece influenciar esse equilíbrio, favorecendo uma resposta microglial mais protetora e menos inflamatória, o que pode ter impacto importante na progressão neurodegenerativa.

Semelhanças entre CBD e terapias com GLP-1

O grande diferencial do estudo é mostrar que o CBD e os agonistas de GLP-1 podem convergir em mecanismos biológicos semelhantes.

Ambos parecem atuar na redução da inflamação, na melhora do metabolismo energético, no controle do estresse oxidativo e na preservação da função mitocondrial.

Essas semelhanças importam porque sugerem que terapias metabólicas podem ter benefícios cognitivos, e que compostos como o CBD podem atuar em pontos estratégicos ligados tanto ao diabetes quanto à neurodegeneração.

Essa conexão reforça a ideia de que tratar doenças metabólicas pode ser uma estratégia fundamental para prevenir ou retardar doenças neurológicas associadas ao envelhecimento.

Por que a via mTOR exige atenção

O estudo também destaca que algumas vias regulatórias exigem cautela, especialmente a via mTOR, que participa do crescimento celular e do metabolismo energético. A hiperativação da mTOR pode bloquear a autofagia, prejudicando a eliminação de resíduos celulares.

O CBD pode influenciar essas vias, mas os autores ressaltam que o equilíbrio entre autofagia e mTOR é delicado. Por isso, ainda são necessários estudos clínicos mais robustos para entender como o CBD pode ser aplicado com segurança em protocolos terapêuticos, principalmente em uso prolongado.

Conclusão

A ciência moderna reforça cada vez mais que o corpo funciona como um sistema integrado, onde metabolismo e saúde cerebral caminham juntos. O diabetes, a obesidade e o envelhecimento metabólico podem aumentar significativamente o risco de neurodegeneração e declínio cognitivo.

Dentro desse cenário, o Canabidiol (CBD) surge como um composto promissor por sua capacidade de modular inflamação, estresse oxidativo, função mitocondrial e mecanismos de limpeza celular como a autofagia.

O estudo analisado aponta que esses efeitos se aproximam de mecanismos observados em terapias modernas baseadas no receptor GLP-1, o que fortalece a hipótese de convergência terapêutica entre metabolismo e neuroproteção.

Apesar dos resultados encorajadores, ainda é essencial ampliar estudos clínicos translacionais para confirmar segurança, eficácia e aplicações reais em humanos.

Mesmo assim, os dados atuais já indicam que o CBD pode ser uma abordagem complementar especialmente em pacientes com risco metabólico associado ao envelhecimento e à neurodegeneração.

Sugestão de artigo: Canabidiol reduz espasmos intestinais

Referência científica

Maiese K. Cannabis and cannabidiol, GLP-1 receptors and autophagy: the growing link between cognitive neurodegeneration and metabolic disease. Link

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Síndrome de Deficiência Endocanabinoide: o que é e por que é importante compreendê-la

Nos últimos anos, a medicina tem avançado na compreensão de síndromes marcadas por dor crônica, sintomas difusos e difícil mensuração objetiva.

Condições como enxaqueca, fibromialgia e síndrome do intestino irritável compartilham características clínicas importantes, como hipersensibilidade à dor, alterações no sono, fadiga persistente e resposta limitada aos tratamentos convencionais.

Um dos maiores desafios no manejo dessas condições é a ausência de marcadores biológicos claros que expliquem, de forma integrada, a origem dos sintomas.

Esse cenário levou pesquisadores a buscar novos modelos fisiológicos capazes de conectar dor, inflamação, estresse e alterações do humor em um mesmo eixo regulatório.

O Sistema Endocanabinoide e seu papel no equilíbrio do organismo

O Sistema Endocanabinoide (SEC) é uma rede biológica fundamental para a manutenção da homeostase do corpo.

Ele é composto principalmente por endocanabinoides, como a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG), pelos receptores canabinoides CB1 e CB2 e pelas enzimas responsáveis por sua síntese e degradação.

Esse sistema atua na modulação da dor, do sono, do apetite, da resposta inflamatória, do humor e da resposta ao estresse. Em condições normais, o SEC funciona como um regulador fino, ajustando essas funções conforme a necessidade do organismo.

A hipótese da Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide

Em 2001, o neurologista e pesquisador Ethan Russo propôs a hipótese da Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide, também conhecida como Síndrome de Deficiência Endocanabinoide (SDE).

Segundo essa teoria, algumas pessoas apresentariam um funcionamento inadequado do SEC, caracterizado por um baixo “tônus endocanabinoide”.

Esse tônus depende dos níveis de anandamida e 2-AG, da eficiência dos receptores canabinoides e da atividade das enzimas que regulam esses mediadores.

Quando esse equilíbrio é comprometido, podem surgir alterações fisiopatológicas associadas à dor crônica, distúrbios do sono, inflamação persistente e alterações emocionais.

Evidências científicas que sustentam a SDE

O que inicialmente foi apresentado como uma hipótese teórica passou a ganhar respaldo científico ao longo dos anos.

Estudos demonstraram, por exemplo, níveis reduzidos de anandamida no líquido cefalorraquidiano de pacientes com enxaqueca, sugerindo uma hipofunção do Sistema Endocanabinoide nesses indivíduos.

Além disso, evidências apontam alterações semelhantes em outras condições, como fibromialgia, síndrome do intestino irritável e transtorno de estresse pós-traumático.

Esses dados reforçam a ideia de que o SEC desempenha um papel central na modulação da dor e da sensibilidade central, ajudando a explicar por que essas síndromes frequentemente coexistem ou compartilham sintomas semelhantes.

Relação entre deficiência endocanabinoide e dor crônica

A deficiência funcional do SEC pode levar a uma amplificação da percepção da dor, fenômeno conhecido como hiperalgesia. Isso ocorre porque o SEC atua como um freio natural sobre os circuitos da dor no sistema nervoso central e periférico.

Quando esse freio falha, o corpo passa a interpretar estímulos normalmente toleráveis como dor, o que favorece a cronificação dos sintomas e aumenta a sensibilização central nessas síndromes.

Modulação do Sistema Endocanabinoide como estratégia terapêutica

Dados clínicos e experimentais indicam que estratégias voltadas à modulação do SEC podem beneficiar pacientes com dor crônica e distúrbios funcionais.

Isso inclui tanto intervenções farmacológicas, como o uso de fitocanabinoides, quanto abordagens não farmacológicas.

Há evidências de que hábitos de vida saudáveis, como sono adequado, manejo do estresse, atividade física regular e alimentação equilibrada, contribuem para o equilíbrio do Sistema Endocanabinoide.

Essas estratégias podem favorecer a produção e a ação dos endocanabinoides, ajudando a restaurar o tônus fisiológico do sistema.

Uma mudança de paradigma no cuidado de condições complexas

A Síndrome de Deficiência Endocanabinoide representa uma mudança importante na forma de compreender condições crônicas e multifatoriais.

Em vez de tratar apenas sintomas isolados, esse modelo propõe uma abordagem baseada em mecanismos fisiológicos reais, integrando dor, inflamação, sono e saúde mental.

Ao ampliar o olhar clínico sobre o papel do Sistema Endocanabinoide, abre-se espaço para estratégias terapêuticas mais individualizadas e fundamentadas em evidências científicas, com potencial impacto positivo na qualidade de vida de pacientes que convivem com essas condições há anos.

Referência científica:
Russo EB. Clinical Endocannabinoid Deficiency Reconsidered: Current Research Supports the Theory in Migraine, Fibromyalgia, Irritable Bowel, and Other Treatment-Resistant Syndromes. Cannabis Cannabinoid Res. 2016. Disponível em:  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28861491/

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Canabigerol: uma nova abordagem para a dor crônica neuropática

A dor crônica neuropática é um dos maiores desafios clínicos atuais. Diferente da dor aguda, ela persiste por longos períodos e está frequentemente associada a lesões no sistema nervoso, inflamação persistente e alterações na sensibilidade à dor.

Muitas vezes, os tratamentos convencionais oferecem alívio limitado ou estão associados a efeitos adversos, o que impulsiona a busca por novas abordagens terapêuticas.

Com isso, os fitocanabinoides vêm ganhando espaço na pesquisa científica.

Além do Canabidiol (CBD) e do Tetrahidrocanabinol (THC), um composto menos conhecido tem despertado interesse dos pesquisadores: o Canabigerol (CBG).

Considerado um canabinoide não psicotrópico, o CBG apresenta um perfil farmacológico promissor, especialmente no controle da dor e da inflamação.

O que é o Canabigerol (CBG)?

O Canabigerol é um fitocanabinoide naturalmente presente na Cannabis sativa, conhecido como um composto precursor de outros fitocanabinoides.

Diferente do THC, o CBG não provoca efeitos psicotrópicos, o que amplia seu potencial de uso terapêutico.

Estudos recentes têm demonstrado que o CBG interage com diferentes alvos biológicos envolvidos na dor, na inflamação e na resposta imune, sugerindo uma atuação promissora no manejo de condições crônicas.

Efeitos do CBG em modelos de dor aguda

Em testes experimentais de dor aguda, como o teste da formalina e o da placa quente, o CBG demonstrou potenciais efeitos analgésicos.

No estudo de referência, a dose de 30 mg/kg foi eficaz na redução das respostas dolorosas.

Esses resultados indicam que o CBG pode atuar tanto em mecanismos periféricos quanto centrais da dor, interferindo na forma como o organismo percebe e processa estímulos dolorosos.

Isso sugere um potencial analgésico amplo, relevante para diferentes tipos de dor.

CBG e dor neuropática crônica

Os achados mais relevantes do estudo surgem no modelo de dor crônica neuropática, induzida por lesão do nervo espinhal.

Nesse cenário, o tratamento contínuo com um extrato enriquecido em CBG, por 14 dias, reduziu de forma significativa a hipersensibilidade térmica e mecânica dos animais.

Na prática, isso significa que o CBG foi capaz de diminuir tanto a dor provocada pelo calor quanto a sensibilidade excessiva ao toque, dois sintomas comuns em pacientes com dor neuropática.

Redução da neuroinflamação e da ativação microglial

Além dos efeitos comportamentais, o estudo identificou alterações importantes no sistema nervoso central.

Um dos principais achados foi a redução da ativação microglial na medula espinhal.

A microglia é um tipo de célula do sistema nervoso envolvida na resposta inflamatória.

Quando ativada de forma persistente, contribui para a manutenção da dor crônica.

A capacidade do CBG de reduzir essa ativação indica um efeito direto sobre a neuroinflamação, um dos principais mecanismos da dor neuropática.

Mecanismo de ação: foco no receptor CB2

Um dos pontos mais importantes do estudo foi a elucidação do mecanismo de ação do CBG.

Os potenciais efeitos analgésicos observados estavam associados principalmente à ativação do receptor CB2, conhecido por seu papel na modulação da inflamação e da resposta imunológica.

Diferente de outros canabinoides, o CBG não apresentou atuação significativa sobre o receptor CB1, responsável pelos efeitos psicotrópicos do THC.

Além disso, não houve envolvimento relevante de mediadores como BDNF ou TNF, o que reforça um perfil farmacológico mais direcionado e potencialmente mais seguro.

Por que o CBG é uma abordagem terapêutica promissora?

Os resultados indicam que o Canabigerol reúne potenciais efeitos importantes para o manejo da dor crônica neuropática:

  • Ação analgésica consistente
  • Redução da inflamação e da neuroinflamação
  • Ativação preferencial do receptor CB2
  • Ausência de efeitos psicotrópicos

Esses fatores tornam o CBG um candidato promissor para futuras estratégias terapêuticas, especialmente como alternativa ou complemento aos tratamentos atuais.

Mais pesquisas sobre o Canabigerol (CBG)

Embora os resultados sejam provenientes de modelos experimentais, os dados reforçam o potencial terapêutico do Canabigerol no tratamento da dor crônica neuropática.

Seu potencial na redução da sensibilidade à dor e na modulação de processos inflamatórios centrais aponta para novas possibilidades no cuidado de pacientes que convivem com dor persistente.

Estudos clínicos em humanos ainda são necessários para reforçar sua eficácia e segurança, no entanto, o CBG já desponta como um dos fitocanabinoides mais promissores da nova geração de pesquisas em dor crônica.

Sugestão de conteúdo: Link

Referência científica:
https://doi.org/10.3390/ph18101508

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Efeito antibacteriano da Cannabis medicinal em infecções endodônticas persistentes

As infecções endodônticas persistentes, popularmente conhecidas como infecções no canal do dente, continuam sendo um desafio clínico na prática odontológica.

Mesmo após tratamentos endodônticos tecnicamente adequados, muitos casos evoluem com dor, inflamação e necessidade de retratamento.

Efeito antibacteriano da Cannabis medicinal: por que acontece as infecções dentárias?

Um dos principais fatores associados a essas falhas é a presença de microrganismos resistentes, organizados em biofilmes, que reduzem a eficácia dos antimicrobianos convencionais utilizados na irrigação e medicação intracanal.

Com isso, o interesse por novas abordagens antimicrobianas que atuem por mecanismos distintos dos antibióticos tradicionais tem crescido.

Entre essas abordagens, os fitocanabinoides derivados da Cannabis sativa, como o Canabidiol (CBD), o Canabinol (CBN) e o Tetrahidrocanabinol (THC), despertam atenção por suas propriedades biológicas, incluindo atividade antimicrobiana já descrita em diferentes contextos infecciosos.

O que são os biofilmes bacterianos?

Os biofilmes bacterianos são estruturas organizadas formadas por colônias de bactérias que se agrupam e se envolvem por uma matriz protetora produzida por elas mesmas.

Essa matriz funciona como uma espécie de “escudo”, dificultando a ação de agentes antimicrobianos e reduzindo a eficácia de procedimentos de limpeza e desinfecção.

Dentro do biofilme, as bactérias passam a se comportar de maneira diferente das formas livres, tornando-se mais resistentes a medicamentos, irrigantes endodônticos e até às defesas naturais do organismo.

Por esse motivo, infecções associadas a biofilmes tendem a ser mais persistentes e difíceis de eliminar, mesmo após múltiplas intervenções clínicas.

Assim, terapias capazes de atuar tanto sobre bactérias isoladas quanto sobre estruturas organizadas em biofilme têm grande importância clínica.

Nas infecções endodônticas persistentes, é comum a presença de bactérias anaeróbias facultativas e estritas colonizando o sistema de canais radiculares.

Entre elas, o Enterococcus faecalis se destaca como um dos principais agentes associados ao insucesso do tratamento endodôntico.

Essa bactéria apresenta alta capacidade de sobrevivência em ambientes hostis, resistência a diversos agentes antimicrobianos e grande facilidade de formar biofilmes, o que explica sua recorrência em casos de ineficiência terapêutica.

Avaliação do efeito antibacteriano da Cannabis medicinal: CBD, CBN e THC

Um estudo de referência avaliou a atividade antibacteriana do Canabidiol (CBD), do Canabinol (CBN) e do Tetrahidrocanabinol (THC) contra três bactérias comumente associadas às infecções endodônticas persistentes: Enterococcus faecalis, Streptococcus mutans e Fusobacterium nucleatum.

As análises foram conduzidas tanto em bactérias em estado planctônico (livres) quanto organizadas em biofilmes, refletindo de forma mais realista as condições clínicas encontradas nos canais radiculares.

Os resultados demonstraram que os três fitocanabinoides foram eficazes na redução do crescimento de E. faecalis e S. mutans quando as bactérias estavam em estado livre.

No caso específico do E. faecalis, o efeito foi ainda mais relevante, pois os compostos não apenas inibiram o crescimento bacteriano como também apresentaram ação bactericida, eliminando as células viáveis.

Ação da Cannabis medicinal sobre biofilmes bacterianos

Quando analisados em biofilmes já estabelecidos e maduros, os fitocanabinoides também demonstraram efeitos relevantes, especialmente contra Enterococcus faecalis e Streptococcus mutans.

Houve redução da viabilidade bacteriana no biofilme, com efeito antimicrobiano proporcional ao aumento da dose.

Esses resultados indicam que fitocanabinoides como o CBD, o CBN e o THC conseguem, ao menos parcialmente, penetrar na matriz protetora do biofilme e interferir na sobrevivência das bactérias ali presentes.

Esse achado é relevante já que a estrutura do biofilme costuma atuar como uma barreira física e química contra a ação de agentes terapêuticos.

Por outro lado, apenas o biofilme formado por Enterococcus faecalis apresentou sinais evidentes de desorganização da matriz extracelular, sugerindo que essa espécie é especialmente sensível à ação dos fitocanabinoides.

No caso do Fusobacterium nucleatum, as concentrações avaliadas não reduziram significativamente a carga bacteriana.

Esse resultado indica que o efeito antibacteriano da Cannabis varia conforme a espécie microbiana.

Cannabis medicinal na endodontia

Os resultados reforçam o potencial dos fitocanabinoides como agentes antibacterianos complementares no manejo de infecções endodônticas persistentes.

A atividade observada contra E. faecalis, uma das principais bactérias associadas às falhas do tratamento endodôntico, é especialmente relevante do ponto de vista clínico.

Embora o estudo tenha sido realizado em ambiente experimental, os resultados indicam que o Canabidiol (CBD), assim como CBN e THC, apresenta potencial para uso terapêutico adjuvante.

Esses compostos podem futuramente ser aplicados em soluções irrigadoras, medicações intracanais ou sistemas de liberação controlada.

No entanto, ainda são necessários estudos clínicos para avaliar segurança, dosagem, estabilidade e eficácia em humanos.

Efeito antibacteriano da Cannabis medicinal

Para concluir, as evidências científicas atuais indicam que os fitocanabinoides apresentam uma potencial atividade antibacteriana contra microrganismos diretamente envolvidos nas infecções endodônticas persistentes, com destaque para o Enterococcus faecalis.

Os efeitos ocorreram em bactérias livres e em biofilmes, reforçando o potencial terapêutico desses compostos em contextos clínicos mais desafiadores.

avaliacao do efeito antibacteriano de cbd cbn e thc2

A inclusão de substâncias como o CBD nas pesquisas endodônticas indica caminhos promissores para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes e baseadas em evidências.

O objetivo é melhorar os resultados clínicos e reduzir falhas a longo prazo nos tratamentos endodônticos.

Referência científica
International Journal of Molecular Sciences. DOI: https://doi.org/10.3390/ijms262411936

© Copyright, todos os direitos reservados a Ana Gabriela Baptista – Imagem e conteúdo de autoria intelectual, não podendo ser copiladas. 2026.

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Canabidiol reduz espasmos intestinais e diarreia em novos estudos

Os distúrbios gastrointestinais funcionais, como a Síndrome do intestino irritável (SII) e quadros de colite funcional, afetam milhões de pessoas em todo o mundo e representam um desafio terapêutico significativo.

Apesar da ampla disponibilidade de medicamentos antiespasmódicos, reguladores de motilidade e antidepressivos tricíclicos, muitos pacientes continuam apresentando sintomas persistentes, o que reforça a necessidade de terapias com novos mecanismos de ação e melhor tolerabilidade.

Nos últimos anos, o Canabidiol (CBD) tem se destacado como um composto promissor na modulação da motilidade intestinal.

Por ser um fitocanabinoide não psicotrópico e com perfil farmacológico amplo, o CBD vem sendo investigado devido seus potenciais antiespasmódico, anti-inflamatório, analgésico e regulador do eixo intestino-cérebro.

Um estudo recente trouxe novas evidências sobre a atuação do CBD diretamente no músculo liso entérico, demonstrando mecanismos que podem ajudar pacientes com distúrbios gastrointestinais refratários.

A relevância do CBD para o sistema gastrointestinal

O trato gastrointestinal possui uma complexa rede de controle, que inclui o sistema nervoso entérico, neurotransmissores, células musculares lisas e o sistema endocanabinoide.

Esse último regula processos como motilidade, secreção, inflamação e percepção visceral.

O CBD, ao contrário do THC, não ativa diretamente os receptores CB1 e CB2, mas influencia canais iônicos, receptores não canabinoides e vias intracelulares associadas ao tônus do músculo liso.

Isso abre possibilidades para o desenvolvimento de terapias mais específicas e seguras, especialmente para condições caracterizadas por hipermotilidade, espasmos, dor abdominal e diarreia.

Como o CBD reduz espasmos intestinais: evidências in vitro

Um estudo experimental em modelo animal in vitro avaliou o efeito do CBD sobre as contrações intestinais.

Os pesquisadores observaram que o composto reduziu de forma significativa a excitabilidade do músculo liso, promovendo relaxamento intestinal.

O mecanismo identificado foi particularmente importante:
o CBD atua ativando canais de potássio, responsáveis por regular a eletricidade da célula muscular.

Quando esses canais se abrem, o potássio sai da célula, tornando a membrana mais estável e dificultando a contração muscular — um processo essencial para reduzir espasmos.

Para confirmar o mecanismo, foram utilizados bloqueadores específicos desses canais.

O resultado foi claro: na presença dos bloqueadores, o efeito antiespasmódico do CBD diminuiu consideravelmente, evidenciando que a abertura dos canais de potássio — especialmente os canais KATP — é crucial para sua ação.

Esse achado reforça que o CBD não apenas modula o sistema endocanabinoide, mas pode atuar diretamente em vias eletrofisiológicas do trato gastrointestinal, Diferenciando-se dos antiespasmódicos tradicionais.

Evidências in vivo: CBD reduz diarreia sem causar constipação

Os efeitos do CBD também foram analisados em modelo in vivo. Em modelo animal com diarreia induzida por óleo de rícino, o tratamento com CBD (10 e 30 mg/kg):

  • aumentou significativamente o número de fezes secas;
  • reduziu a evacuação líquida;
  • promoveu aproximadamente 56% de proteção contra a diarreia;
  • apresentou eficácia comparável à da loperamida, um antidiarreico de uso comum;
  • não reduziu o número total de evacuações.

Este último ponto é extremamente relevante: diferentemente de medicamentos como loperamida, que podem causar constipação rebote, o CBD normalizou a motilidade intestinal sem interromper completamente o trânsito, sugerindo uma ação mais fisiológica e menos agressiva.

Implicações clínicas e potencial terapêutico

Os resultados do estudo indicam que o Canabidiol apresenta duplo potencialno trato gastrointestinal:

  1. Antiespasmódico, reduzindo hipercontrações e auxiliando no controle da dor abdominal;
  2. Antidiarreica, sem promover constipação ou alteração negativa da dinâmica intestinal.

Essa combinação é particularmente valiosa em condições como:

  • Síndrome do intestino irritável (SII) com predomínio de diarreia;
  • Colite funcional;
  • Distúrbios de motilidade induzidos por estresse;
  • Inflamação intestinal leve a moderada;
  • Hipermotilidade intestinal associada ao eixo intestino-cérebro.

Além disso, a identificação dos canais KATP como alvo farmacológico abre portas para novas linhas de pesquisa e formulações específicas para uso gastrointestinal.

Com isso, as evidências experimentais reforçam que o Canabidiol pode se tornar uma alternativa terapêutica importante para pacientes com distúrbios gastrointestinais funcionais e resposta limitada aos tratamentos convencionais.

Sua ação antiespasmódica mediada por canais de potássio e sua eficácia antidiarreica sem causar constipação tornam o CBD um candidato extremamente promissor para abordagens integradas e personalizadas.

Com o avanço das pesquisas, é possível que o CBD venha a ocupar um papel relevante na gastroenterologia funcional, oferecendo novos caminhos para o manejo de condições complexas e de alta prevalência.

Link de Referência

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Refeições ricas em gordura aumentam a absorção do Canabidiol, segundo estudos

A absorção oral do Canabidiol (CBD) é reconhecidamente limitada devido à sua elevada lipofilicidade e ao metabolismo de primeira passagem.

Mesmo em doses adequadas, apenas uma fração do CBD ingerido chega efetivamente à circulação sistêmica, o que pode impactar sua eficácia clínica em diferentes aplicações terapêuticas.

Por essa razão, compreender fatores que otimizam sua absorção é essencial para melhorar seus potenciais efeitos terapêuticos.

Estudos anteriores já sugeriam que o consumo de alimentos ricos em gordura poderia aumentar a biodisponibilidade do CBD, mas ainda não estava claro se esse benefício dependia exclusivamente do teor de gordura ou se estava associado ao total calórico da refeição.

Dieta influencia na terapia com CBD

Para responder a essa questão, um estudo cruzado randomizado avaliou o impacto de refeições com as mesmas quantidades de calorias, uma rica em gordura e outra rica em carboidratos, sobre a farmacocinética do CBD em adultos jovens e saudáveis.

Participaram do estudo dez voluntários que, em dias distintos, consumiram duas refeições de igual valor calórico (800 kcal), mas com composições nutricionais muito diferentes:

  • Refeição rica em gordura: 70% lipídios
  • Refeição rica em carboidratos: 70% carboidratos

Após cada refeição, os participantes ingeriram 60 mg de CBD isolado. Amostras sanguíneas foram coletadas ao longo de sete horas para medir concentrações plasmáticas de CBD, metabólitos e parâmetros metabólicos.

Refeições ricas em gordura aumentam a absorção do Canabidiol

Refeições ricas em gordura e o canabidiol 2

Os resultados foram claros: quando o CBD foi administrado após a refeição rica em gordura, a AUC (área sob a curva) foi significativamente maior, indicando maior absorção total do composto ao longo do tempo.

Mesmo que a Cmax (concentração máxima) e o Tmax (tempo até atingir a concentração máxima) não tenham mostrado diferenças estatísticas relevantes entre os protocolos, o aumento da AUC reforça que refeições ricas em lipídios melhoram a biodisponibilidade do CBD de maneira mais eficiente do que refeições igualmente calóricas, porém ricas em carboidratos.

Esse aumento pode estar relacionado a diferentes mecanismos fisiológicos ativados pelo consumo de gordura, como a liberação de bile, a formação de micelas e o favorecimento da absorção linfática — vias que beneficiam compostos lipofílicos como o Canabidiol.

CBD não mostrou eventos adversos significativos

O estudo também avaliou marcadores metabólicos e sintomas gastrointestinais. Foram observadas pequenas diferenças na glicemia entre os protocolos, mas sem impacto clínico significativo.

Não houve alterações relevantes nos demais marcadores e nenhum sintoma gastrointestinal importante foi relatado.

Esses achados indicam que refeições ricas em gordura podem melhorar a absorção do CBD sem provocar efeitos colaterais relevantes no contexto estudado.

Alimentos podem influenciar na absorção do CBD

Os resultados fornecem evidências robustas de que a composição da refeição influencia diretamente a farmacocinética do CBD, independentemente da quantidade de calorias ingeridas.

Para profissionais prescritores de fitocanabinoide e pacientes que utilizam o Canabidiol em tratamentos contínuos, considerar o contexto alimentar pode ser essencial para:

  • Melhorar a eficácia terapêutica
  • Potencializar a absorção oral
  • Tornar a resposta ao tratamento mais consistente

Além disso, o estudo abre novas perspectivas para pesquisas futuras que busquem determinar o teor mínimo de gordura necessário para otimizar a absorção e avaliar o impacto de diferentes tipos de lipídios nesse processo.

Com isso, o estudo demonstra que refeições ricas em gordura aumentam significativamente a absorção do Canabidiol, reforçando a importância de considerar a alimentação como parte das orientações clínicas para o uso de CBD.

A biodisponibilidade oral é um fator crítico para alcançar resultados terapêuticos consistentes, e compreender como as refeições influenciam esse processo é fundamental para otimizar sua eficácia.

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Canabidiol e resveratrol demonstram efeito sinérgico na redução de sintomas de estresse crônico

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica complexa que surge após experiências traumáticas intensas.

Caracteriza-se por alterações cognitivas, emocionais e comportamentais persistentes, incluindo hiperagressividade, irritabilidade, anedonia e instabilidade de humor.

Apesar das opções terapêuticas disponíveis, muitos pacientes permanecem sintomáticos, o que tem impulsionado a busca por novas abordagens com ação neuroprotetora e moduladora do estresse.

Nesse cenário, compostos naturais como o Canabidiol (CBD) e o resveratrol (RES) vêm despertando interesse crescente na comunidade científica.

A combinação entre CBD e antioxidantes naturais

O CBD, um fitocanabinoide não psicotrópico derivado da Cannabis sativa, tem sido amplamente estudado por seus efeitos ansiolíticos, antidepressivos e antiagressivos.

Já o resveratrol e o ácido alfa-lipóico (ALA) são antioxidantes naturais com propriedades anti-inflamatórias e reguladoras do estresse oxidativo, processos diretamente ligados à fisiopatologia do TEPT.

Um estudo conduzido por pesquisadores italianos, publicado em 2025 na revista Frontiers in Pharmacology, investigou os efeitos combinados do CBD, resveratrol e ácido alfa-lipóico em modelos animais com comportamentos associados ao estresse crônico e ao TEPT.

O objetivo foi compreender se a associação dessas substâncias poderia potencializar os benefícios terapêuticos observados com o uso isolado do CBD.

CBD e Resveratrol na saúde mental

CBD e Resveratrol na saude mental

Durante o experimento, os modelos foram submetidos a tratamento crônico por 15 dias, após um período de isolamento que induziu sintomas semelhantes aos observados no TEPT humano.

Os resultados mostraram que os animais que fizeram uso de Canabidiol apresentaram redução significativa da agressividade, com diminuição do número de ataques e aumento do tempo até o primeiro comportamento agressivo.

Esses efeitos foram dose-dependentes, ou seja, mais pronunciados conforme o aumento da dose administrada.

Contudo, o ponto mais interessante do estudo foi o efeito sinérgico observado entre o CBD e os antioxidantes naturais.

Quando doses baixas de Canabidiol, que isoladamente não produziam efeito relevante, foram combinadas com resveratrol ou ácido alfa-lipóico, houve uma potencialização expressiva dos efeitos comportamentais — resultando em melhor controle da impulsividade e menor frequência de ataques agressivos.

Mecanismos envolvidos e sinergia terapêutica

Os autores sugerem que a combinação entre o CBD e os antioxidantes naturais atua sobre vias neuroinflamatórias e mecanismos de estresse oxidativo, ambos envolvidos na resposta patológica ao trauma.

Enquanto o CBD modula o sistema endocanabinoide e receptores serotoninérgicos (5-HT1A), promovendo redução da reatividade emocional, compostos como o resveratrol e o ALA ajudam a neutralizar espécies reativas de oxigênio (ROS) e a proteger os neurônios da inflamação crônica induzida pelo estresse.

Essa interação potencializa a regulação da excitabilidade neuronal, contribuindo para o equilíbrio emocional e a redução de comportamentos impulsivos e agressivos.

O efeito sinérgico observado reforça a hipótese de que a combinação de moduladores endocanabinoides e antioxidantes pode representar uma nova estratégia terapêutica para o manejo de sintomas do TEPT e de condições relacionadas ao estresse crônico.

Novas perspectivas para o tratamento do estresse crônico

Os resultados desse estudo apontam para uma abordagem combinada promissora na psiquiatria translacional.

A interação entre Canabidiol e antioxidantes naturais sugere uma via terapêutica de baixa toxicidade, efeito rápido e múltiplos mecanismos de ação, o que pode beneficiar pacientes com resposta limitada às terapias convencionais.

Os autores ressaltam, no entanto, que são necessários ensaios clínicos em humanos para confirmar a eficácia, segurança e dose ideal dessa combinação.

Ainda assim, os dados experimentais reforçam o papel do CBD como um potencial agente da modulação do estresse e do resveratrol como um aliado na proteção neuronal, uma parceria que pode abrir caminho para novos tratamentos baseados na neurobiologia da resiliência.

Referência científica

DOI: 10.3389/fphar.2025.1676421

© Copyright, todos os direitos reservados a Ana Gabriela Baptista — Imagem e conteúdo de autoria intelectual, não podendo ser copiados. 2025.

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Canabidiol mostra efeitos antidepressivos superiores ao escitalopram, diz estudo

O transtorno depressivo maior (TDM) é uma das condições psiquiátricas mais prevalentes e incapacitantes no mundo. Ele está associado a alterações estruturais e funcionais no hipocampo, região cerebral envolvida na regulação do humor, memória e resposta ao estresse. Um dos principais mecanismos observados nesses pacientes é a redução da neuroplasticidade sináptica, ou seja, a capacidade dos neurônios de formar novas conexões.

Qual tratamento para Transtorno depressivo maior

Atualmente, o tratamento de primeira linha envolve os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como o escitalopram. Embora eficazes para muitos pacientes, esses medicamentos apresentam latência terapêutica prolongada (demoram semanas para agir) e efeitos adversos importantes, o que limita seus resultados clínicos. Diante disso, o Canabidiol (CBD) tem atraído grande atenção científica como uma abordagem terapêutica inovadora para os transtornos de humor.

O Canabidiol como modulador da neuroplasticidade

O CBD é um fitocanabinoide não psicotrópico derivado da Cannabis sativa, com efeitos ansiolíticos, anti-inflamatórios e neuroprotetores já bem documentados. Pesquisas anteriores mostraram que o composto pode atuar sobre o sistema endocanabinoide e sobre receptores serotoninérgicos (como 5-HT1A), modulando a resiliência ao estresse e a plasticidade neural — fatores diretamente relacionados à depressão.

Um estudo publicado em 2025 na revista Veterinary World avaliou, em modelo animal de estresse crônico por contenção, os efeitos comportamentais e neurobiológicos do Canabidiolem comparação ao escitalopram. O objetivo era determinar se o CBD poderia oferecer uma resposta antidepressiva mais rápida e eficaz que o tratamento convencional.

Comparação entre Canabidiol e Escitalopram

Nos testes comportamentais, o CBD apresentou redução significativa do comportamento de imobilidade no teste de natação forçada, um marcador clássico de desespero comportamental. Esse efeito foi semelhante ao observado com o escitalopram, indicando potencial antidepressivo comparável.

No teste de preferência por sacarose, utilizado para medir a anedonia (perda de prazer em atividades agradáveis), o CBD reverteu o sintoma apenas nas doses mais elevadas, resultado também observado no grupo tratado com escitalopram.

Esses achados sugerem que o Canabidiol exerce potencial efeito antidepressivo dose-dependente, capaz de modular o comportamento associado ao estresse crônico.

Efeitos celulares e sinápticos do Canabidiol

Além dos resultados comportamentais, o estudo investigou o impacto do tratamento no hipocampo, uma região cerebral chave para a regulação emocional.

Os animais tratados com CBD apresentaram aumento na densidade de espinhas dendríticas — estruturas responsáveis pela comunicação entre os neurônios —, indicando melhora da conectividade sináptica. Curiosamente, esse efeito foi mais pronunciado nas doses menores, sugerindo que o CBD atua de forma moduladora e não linear sobre a plasticidade neural.

Outro achado relevante foi o aumento da potenciação de longo prazo (LTP), processo que reflete o fortalecimento das sinapses e está diretamente ligado à aprendizagem e memória. Esse ganho de força sináptica foi observado somente com o CBD, não ocorrendo com o escitalopram, o que reforça que o fitocanabinoide atua por mecanismos distintos dos ISRS.

Implicações terapêuticas

Os resultados reforçam que o Canabidiol possui potencial ação antidepressiva robusta e de início rápido, associada à modulação da plasticidade sináptica hipocampal e à melhora da função neuronal.

Diferentemente dos antidepressivos tradicionais, que dependem da modulação de serotonina, o CBD parece estimular diretamente a regeneração e o fortalecimento das conexões neurais, sendo uma abordagem terapêutica para o tratamento de transtornos depressivos resistentes.

Essas evidências consolidam o Canabidiol como um candidato promissor no manejo de transtornos de humor relacionados ao estresse e à disfunção neuroplástica, com potencial para complementar ou substituir terapias convencionais no futuro próximo.

Referência científica

Ruanpang J, et al. Cannabidiol reverses depression-like behaviors by enhancing hippocampal synaptic plasticity in rats with chronic restraint stress. Veterinary World. 2025.

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Potencial das raízes da Cannabis medicinal na produção de compostos anti-inflamatórios

A Cannabis sativa L. é amplamente reconhecida por seu vasto conjunto de metabólitos bioativos com propriedades terapêuticas.

Tradicionalmente, as pesquisas sobre a planta concentram-se nas flores e folhas, de onde se extraem os fitocanabinoides mais conhecidos, como o Tetrahidrocanabinol (THC) e o Canabidiol (CBD).

Entretanto, estudos recentes vêm revelando que as raízes da Cannabis, especialmente as chamadas raízes adventícias, também representam uma fonte promissora e sustentável de compostos biologicamente ativos.

O que são raízes adventícias?

As Raízes adventícias são raízes que se originam a partir de qualquer tecido da planta que não seja a raiz embrionária (radícula), como caules, folhas ou outros tecidos, elas possuem grande potencial biotecnológico, pois permitem a produção escalável e padronizada de substâncias de interesse farmacológico, sem depender da colheita da planta inteira.

Essa abordagem torna o processo mais eficiente e ambientalmente sustentável.

Em um estudo recente, pesquisadores avaliaram extratos obtidos das raízes adventícias da Cannabis utilizando diferentes solventes, com destaque para o extrato metanólico (MeOH-E), a fim de investigar sua ação sobre células dendríticas, que desempenham papel central na regulação do sistema imunológico.

O que o estudo mostrou sobre os potenciais efeitos da raiz da Cannabisque são raízes adventícias?

Os resultados demonstraram que o extrato metanólico (MeOH-E) apresentou forte atividade anti-inflamatória, sem causar efeitos tóxicos nas células analisadas.

A análise metabolômica revelou compostos de grande interesse terapêutico, incluindo:

  • Glicosídeos canabinoides
  • Ácido canabigerólico-O-acetato (CBGA-O-acetato)
  • Derivados de diacetato e monoacetato de Canabidiol (CBD)

Essas substâncias estão associadas a potenciais efeitos antioxidantes, imunorreguladores e anti-inflamatórios, fortalecendo o promissor efeito terapêutico dos compostos da planta.

Cannabis no controle de doenças inflamatórias crônicas

Funcionalmente, o extrato metanólico foi capaz de reduzir a expressão de moléculas envolvidas na apresentação de antígenos, modulando negativamente vias inflamatórias como MAPK e NF-κB — ambas relacionadas à ativação de respostas imunes exacerbadas.

Além disso, o estudo apontou que o MeOH-E inibiu a proliferação e ativação de linfócitos T, indicando uma potente ação imunomoduladora e o potencial uso dos compostos derivados das raízes da Cannabis no controle de doenças inflamatórias crônicas.

Como os compostos da Cannabis podem ajudar em condições autoimunes

Esses achados reforçam o papel da Cannabis sativa como uma fonte multifuncional de princípios ativos e posicionam o sistema de raízes adventícias como uma plataforma biotecnológica reprodutível, sustentável e altamente promissora.

Com o avanço dessas pesquisas, torna-se possível desenvolver novos fármacos e nutracêuticos voltados ao tratamento de condições inflamatórias e autoimunes, expandindo o campo terapêutico da Cannabis medicinal para além de suas partes mais conhecidas.

Referência: Nature – Scientific Reports (2025)

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Canabizetol (CBGD): o novo canabinoide promissor descoberto na Cannabis sativa

A pesquisa científica sobre a Cannabis medicinal segue revelando compostos inéditos com grande potencial terapêutico. Recentemente, pesquisadores identificaram um novo canabinoide natural: o Canabizetol (CBGD), um achado que amplia ainda mais o conhecimento sobre a complexa composição química da planta.

O que é o Canabizetol (CBGD)?

canabizetol imagem molecuca

O Canabizetol (CBGD) é o terceiro membro conhecido da rara classe dos canabinoides diméricos com pontes de metileno, um grupo de moléculas caracterizado por estruturas químicas complexas e ainda pouco estudadas.

Esse composto foi identificado inicialmente em extratos naturais da Cannabis sativa. Para confirmar sua autenticidade, os cientistas realizaram a síntese química do CBGD em laboratório e compararam o resultado com a amostra natural, comprovando que se tratava realmente de uma nova molécula existente na planta.

Essa confirmação representa um marco importante na caracterização dos fitocanabinoides, ampliando as fronteiras do conhecimento científico sobre os compostos bioativos da Cannabis.

Potencial antioxidante e anti-inflamatório do CBGD

Além da descoberta estrutural, os pesquisadores observaram que o Canabizetol apresenta grande potencial antioxidante e anti-inflamatória na pele, superando inclusive os efeitos do Canabivinol (CBDD), outro canabinoide dimérico já conhecido.

Essas propriedades tornam o CBGD um candidato promissor para o desenvolvimento de terapias dermatológicas, especialmente no tratamento de inflamações cutâneas, envelhecimento da pele e outras condições relacionadas ao estresse oxidativo.

Produção em fluxo contínuo e avanços laboratoriais

Para facilitar o estudo e o acesso a esse novo composto, o grupo de pesquisa desenvolveu uma estratégia sintética em fluxo contínuo, um método moderno que permite:

  • Maior controle do processo químico;
  • Redução do tempo de produção;
  • Síntese mais eficiente e escalável.

Essa inovação abre caminho para testes clínicos e farmacológicos em maior escala, tornando o CBGD mais acessível para novas pesquisas.

O que essa descoberta representa para a medicina canabinoide?

A identificação do Canabizetol (CBGD) reforça a diversidade química da Cannabis sativa e seu potencial terapêutico ainda em expansão.
O composto se destaca não apenas por sua estrutura inédita, mas também por seu perfil bioativo relevante, principalmente em aplicações dermatológicas e antioxidantes.

À medida que a ciência avança, novas moléculas como o CBGD podem ampliar as possibilidades da terapia com fitocanabinoides, oferecendo alternativas seguras, satisfatórias e cientificamente embasadas.

Referência científica:
Luca Pozzi, Andrea Gotti, et al. Cannabizetol, a Novel Cannabinoid: Chemical Synthesis, Anti-inflammatory Activity and Extraction from Cannabis sativa L. Journal of Natural Products. 2025.


Link para o estudo

© Copyright, todos os direitos reservados a Ana Gabriela Baptista – Imagem e conteúdo de autoria intelectual, não podendo ser copiladas. 2025.