CBD e autismo: estudo aponta melhora na interação social e ansiedade

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O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada principalmente por dificuldades na comunicação, desafios na interação social e padrões comportamentais repetitivos.

Além dos sintomas centrais, muitas crianças com TEA também apresentam ansiedade, agitação, alterações alimentares, dificuldade de concentração e sensibilidade emocional aumentada.

Nos últimos anos, o avanço das pesquisas sobre o Sistema Endocanabinoide e os fitocanabinoides da Cannabis sativa despertou interesse científico em novas abordagens terapêuticas para o TEA.

Entre esses compostos, o Canabidiol (CBD) ganhou destaque por seu potencial modulador sobre mecanismos neurológicos envolvidos no comportamento, na ansiedade e na regulação emocional.

Um estudo clínico recente avaliou justamente os efeitos de um extrato rico em CBD em crianças com TEA, trazendo resultados relevantes para o entendimento científico sobre o tema.

O que é o Transtorno do Espectro Autista

O TEA é uma condição neurológica complexa que afeta diferentes áreas do desenvolvimento. Os sintomas variam entre os indivíduos, tanto em intensidade quanto em apresentação clínica.

As principais características envolvem dificuldades na comunicação verbal e não verbal, limitação na interação social e presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos.

Além disso, muitas crianças com TEA apresentam condições associadas, como ansiedade, irritabilidade, hiperatividade, alterações sensoriais e distúrbios do sono.

Por conta dessa diversidade clínica, o manejo do TEA costuma exigir uma abordagem multidisciplinar, envolvendo acompanhamento médico, terapias comportamentais, suporte educacional e estratégias individualizadas.

Como o CBD pode atuar no organismo

O Canabidiol é um fitocanabinoide não psicotrópico presente na Cannabis sativa L. Diferente do Tetrahidrocanabinol (THC), o CBD não provoca efeitos psicotrópicos relacionados à sensação de intoxicação.

Os pesquisadores estudam o CBD principalmente por sua interação com o Sistema Endocanabinoide, uma rede biológica com receptores canabinoides que participa da regulação de funções importantes do organismo, incluindo comportamento social, resposta emocional, ansiedade, humor, sono e comunicação neuronal.

Além dos receptores canabinoides clássicos, o CBD também pode influenciar sistemas relacionados à serotonina, à modulação inflamatória e à excitabilidade neuronal.

Esses mecanismos possuem interesse científico porque diversas pesquisas apontam alterações neuroinflamatórias e desequilíbrios neuroquímicos em indivíduos com TEA.

Como o estudo foi realizado

O estudo citado foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado um dos modelos mais confiáveis na pesquisa clínica.

Os pesquisadores avaliaram crianças entre 5 e 11 anos ao longo de 12 semanas de tratamento com um extrato de Cannabis sativa rico em CBD.

Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam quais crianças estavam recebendo o extrato ou o placebo durante o estudo, o que reduz vieses na análise dos resultados.

O principal objetivo foi investigar possíveis mudanças em sintomas relacionados ao TEA, incluindo interação social, ansiedade, comportamento e aspectos funcionais do dia a dia.

Melhora na interação social

Um dos resultados do estudo foi a melhora observada na interação social das crianças que utilizaram o extrato rico em CBD.

A interação social representa um dos principais desafios no TEA e faz parte dos critérios diagnósticos da condição. Dificuldades em iniciar conversas, manter contato social, interpretar expressões emocionais e responder adequadamente a estímulos sociais costumam impactar diretamente a qualidade de vida da criança e de sua família.

Diante disso, esse resultado sugere que o CBD pode influenciar mecanismos neurológicos relacionados ao comportamento social, favorecendo uma melhora nesse domínio clínico.

Embora os pesquisadores ainda precisem aprofundar os mecanismos envolvidos, esse resultado reforça o interesse científico sobre o papel do Sistema Endocanabinoide na regulação das interações sociais.

Redução da ansiedade e da agitação

Além dos efeitos na interação social, o estudo também identificou melhora em sintomas frequentemente associados ao TEA, especialmente ansiedade e agitação psicomotora.

A ansiedade é extremamente comum em indivíduos com autismo e pode intensificar comportamentos repetitivos, irritabilidade e dificuldades de adaptação social. Muitos pacientes também apresentam aumento da resposta ao estresse e dificuldade em lidar com mudanças de rotina.

Pesquisadores já investigam o potencial ansiolítico do CBD em diferentes condições neurológicas e psiquiátricas. Os dados observados nesse estudo sugerem essa possibilidade também no contexto do TEA.

A redução da agitação psicomotora observada nas crianças pode estar relacionada à modulação de circuitos neurais ligados à excitabilidade cerebral e ao processamento emocional.

Alterações na concentração e no comportamento alimentar

Os pesquisadores também observaram mudanças positivas em aspectos relacionados à concentração e ao padrão alimentar.

Muitas crianças com TEA apresentam seletividade alimentar, alterações sensoriais associadas à alimentação ou dificuldade de manter atenção em atividades específicas.

Embora o estudo não tenha aprofundado detalhadamente esses mecanismos, os resultados sugerem que o CBD pode exercer efeitos mais amplos sobre funções comportamentais e cognitivas.

Isso indica possíveis aplicações terapêuticas do CBD em manifestações associadas ao TEA, além dos sintomas centrais.

Segurança e efeitos adversos

Um dos pontos mais importantes do estudo foi o perfil de segurança apresentado durante o tratamento.

Apenas uma pequena parcela das crianças relatou efeitos adversos, e os sintomas observados foram leves e transitórios. Entre eles estavam tontura, insônia e desconforto abdominal.

Esse dado é importante porque a segurança representa uma das principais preocupações quando se avaliam terapias voltadas ao público pediátrico.

Os resultados sugerem que o extrato rico em CBD apresentou tolerabilidade favorável dentro das condições avaliadas no estudo.

O papel do Sistema Endocanabinoide no TEA

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar com maior profundidade a relação entre o Sistema Endocanabinoide e o Transtorno do Espectro Autista.

Esse sistema participa da regulação da comunicação neuronal, da resposta inflamatória, do equilíbrio emocional e do comportamento social.

Alguns estudos identificaram alterações em componentes do Sistema Endocanabinoide produzidos pelo organismo, os endocanabinoides, em indivíduos com TEA, levantando a hipótese de que desequilíbrios nessa rede biológica possam contribuir para manifestações clínicas da condição.

O CBD é interessante para a ciência justamente por sua capacidade de modular diferentes vias relacionadas ao funcionamento cerebral.

Limitações do estudo e necessidade de novas pesquisas

Apesar dos bons resultados observados, os pesquisadores destacam que ainda são necessários estudos com amostras maiores e acompanhamento mais prolongado.

Ensaios clínicos adicionais serão importantes para confirmar os benefícios observados, definir doses ideais, avaliar efeitos de longo prazo e estabelecer protocolos terapêuticos mais precisos.

Além disso, o TEA apresenta grande heterogeneidade clínica, o que significa que diferentes pacientes podem responder de formas distintas ao tratamento.

O que os resultados indicam na prática

Os dados do estudo sugerem que o CBD pode atuar além dos sintomas centrais do TEA, como em manifestações associadas, tais como ansiedade, agitação e alterações comportamentais.

Embora ainda não exista consenso definitivo sobre protocolos terapêuticos, o avanço das pesquisas amplia o campo de investigação científica sobre o papel do Sistema Endocanabinoide no neurodesenvolvimento.

Sugestão de leitura: CBD altera o metabolismo do citalopram, mas pouco afeta a morfina

Referência científica
doi.org/10.47626/2237-6089-2021-0396

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Autora

Foto de Ana Gabriela Baptista

Ana Gabriela Baptista

Ana Gabriela Baptista é Diretora da Vigo Academy e CEO da TegraPharma, atuando também como Pesquisadora, Consultora Técnica e Perita Judicial. Com uma experiência clínica de mais de 17 anos, concentra seus esforços no P&D&I de produtos derivados da Cannabis e na gestão terapêutica, educação médica, inteligência de mercado e compliance.

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Ana Gabriela Baptista é Diretora da Vigo Academy e CEO da TegraPharma, atuando também como Pesquisadora, Consultora Técnica e Perita Judicial. Com uma experiência clínica de mais de 17 anos, concentra seus esforços no P&D&I de produtos derivados da Cannabis e na gestão terapêutica, educação médica, inteligência de mercado e compliance.

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