CBD altera o metabolismo do citalopram, mas pouco afeta a morfina

cbd altera o metabolismo do citalopram

O Canabidiol (CBD) se tornou um dos compostos mais estudados da Cannabis medicinal e vem sendo utilizado em diferentes contextos terapêuticos, incluindo ansiedade, dor crônica, distúrbios do sono e doenças neurológicas.

Com o crescimento do seu uso, uma preocupação passou a chamar atenção de pesquisadores e profissionais da saúde: as interações medicamentosas.

Isso acontece porque o CBD não atua apenas no Sistema Endocanabinoide, mas também interfere em enzimas importantes responsáveis pelo metabolismo de diversos medicamentos.

Esse fator pode alterar a concentração de determinados fármacos no organismo e, consequentemente, aumentar o risco de efeitos adversos ou modificar a eficácia do tratamento.

Um estudo recente avaliou exatamente esse cenário, investigando o impacto do uso diário de CBD sobre dois medicamentos amplamente utilizados: o citalopram, antidepressivo comum, e a morfina, analgésico opioide utilizado em quadros de dor intensa.

Por que o CBD pode causar interações medicamentosas

O organismo metaboliza medicamentos principalmente por meio do fígado. Nesse processo, enzimas específicas quebram as substâncias para que elas possam ser eliminadas com segurança.

Entre os sistemas mais importantes envolvidos nessa metabolização estão o citocromo P450 (CYP) e a UDP-glucuronosiltransferase (UGT). Essas enzimas participam da metabolização de uma grande variedade de fármacos, incluindo antidepressivos, anticonvulsivantes, ansiolíticos e opioides.

O CBD, do ponto de vista farmacológico, pode inibir parte dessas enzimas, principalmente as do sistema CYP.

Quando isso ocorre, o medicamento pode permanecer mais tempo circulando no sangue, aumentando sua concentração no organismo.

Na prática, isso significa que o paciente pode sentir efeitos mais intensos do medicamento ou apresentar maior risco de reações adversas.

O que o estudo avaliou sobre CBD, citalopram e morfina

O estudo analisado teve como objetivo entender se o uso contínuo de CBD poderia alterar a farmacocinética do citalopram e da morfina, ou seja, a forma como o corpo absorve, distribui e elimina essas substâncias.

Para isso, os pesquisadores conduziram um ensaio clínico aberto com duas coortes de voluntários saudáveis, sendo 20 participantes no grupo do citalopram e 20 no grupo da morfina.

Durante o período do estudo, os voluntários utilizaram CBD diariamente por 12 dias e os pesquisadores avaliaram os níveis dos medicamentos no sangue, comparando os resultados antes e depois da associação com o Canabidiol.

CBD e citalopram: aumento relevante na concentração do antidepressivo

O citalopram é um antidepressivo amplamente prescrito, especialmente para depressão e transtornos de ansiedade. Ele pertence à classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e seu metabolismo depende principalmente do sistema CYP.

Os resultados do estudo mostraram que o CBD alterou de forma importante a exposição sistêmica ao citalopram.

A área sob a curva (AUC), que representa a quantidade total do medicamento disponível no organismo ao longo do tempo, aumentou aproximadamente 43%.

Além disso, a concentração máxima (Cmáx) também aumentou, com elevação em torno de 12%.

Embora o aumento da Cmáx tenha sido menor, a elevação expressiva da AUC sugere que o corpo demorou mais tempo para metabolizar e eliminar o citalopram quando o CBD estava presente.

O que isso significa na prática clínica

Esse tipo de interação pode ser clinicamente relevante pois, quando o citalopram se acumula no organismo, aumentam as chances de efeitos colaterais, como náuseas, tontura, sonolência, alterações gastrointestinais e, em alguns casos, risco aumentado de eventos cardíacos, especialmente em indivíduos predispostos.

Embora o estudo tenha sido conduzido em voluntários saudáveis e em ambiente controlado, os dados reforçam que pacientes que utilizam CBD junto com antidepressivos metabolizados por CYP devem ser acompanhados com mais atenção.

CBD e morfina: alterações pequenas e sem impacto significativo

A morfina é um analgésico opioide utilizado no tratamento de dores intensas, principalmente em contextos hospitalares, pós-operatórios e também em cuidados paliativos.

Diferente do citalopram, a morfina é metabolizada principalmente pelo sistema UGT, e não pelo sistema CYP. Por isso, existia a dúvida se o CBD também poderia interferir nesse caminho metabólico.

No grupo da morfina, o estudo observou apenas pequenas alterações na AUC e na Cmáx, com variações discretas e sem impacto clínico considerado relevante. Isso sugere que o CBD possui uma interferência menos expressiva sobre as vias metabólicas da morfina.

Por que essa diferença acontece

O estudo reforça que as interações medicamentosas com CBD não ocorrem da mesma forma para todos os fármacos. O risco depende diretamente de qual via metabólica o medicamento utiliza.

Como o CBD tende a interferir mais fortemente nas enzimas do sistema CYP, medicamentos metabolizados por esse caminho apresentam maior probabilidade de sofrer alterações significativas na concentração plasmática.

Substâncias metabolizadas predominantemente pela UGT, como a morfina, sofrem menor impacto com o uso de CBD.

O que esses achados ensinam sobre segurança no uso do CBD

Os resultados reforçam um ponto importante: o uso do CBD deve sempre considerar o contexto farmacológico do paciente, principalmente quando ele já utiliza medicamentos de uso contínuo.

A interação observada com o citalopram mostra que o CBD pode aumentar a exposição sistêmica de antidepressivos metabolizados por CYP, o que exige atenção especial na prática clínica.

Por outro lado, os achados com a morfina demonstram que nem todas as associações geram interações relevantes, o que evita generalizações e reforça a importância de analisar cada caso individualmente.

Conclusão

O estudo mostra que o CBD pode aumentar a concentração de citalopram ao inibir seu metabolismo hepático pelo sistema citocromo P450.

Em contraste, o CBD apresentou impacto discreto sobre a morfina, indicando que a interferência em vias UGT parece ser mais limitada.

Esses dados reforçam a necessidade de monitoramento individualizado em pacientes que utilizam CBD em conjunto com antidepressivos e outros medicamentos metabolizados por CYP.

A compreensão dessas interações é essencial para garantir segurança terapêutica, reduzir riscos e melhorar a eficácia dos tratamentos.

Sugestão de conteúdo para leitura: Síndrome da deficiência Endocanabinoide

Referência científica

CPT. Cannabidiol interaction with citalopram and morphine: clinical pharmacokinetic evaluation.
Disponível em: https://doi.org/10.1002/cpt.70219

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Autora

Foto de Ana Gabriela Baptista

Ana Gabriela Baptista

Ana Gabriela Baptista é Diretora da Vigo Academy e CEO da TegraPharma, atuando também como Pesquisadora, Consultora Técnica e Perita Judicial. Com uma experiência clínica de mais de 17 anos, concentra seus esforços no P&D&I de produtos derivados da Cannabis e na gestão terapêutica, educação médica, inteligência de mercado e compliance.

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Ana Gabriela Baptista é Diretora da Vigo Academy e CEO da TegraPharma, atuando também como Pesquisadora, Consultora Técnica e Perita Judicial. Com uma experiência clínica de mais de 17 anos, concentra seus esforços no P&D&I de produtos derivados da Cannabis e na gestão terapêutica, educação médica, inteligência de mercado e compliance.

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